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terça-feira, 27 de março de 2012

Breviário Sobre a Gramaticalidade da LIBRAS

     A língua de sinais brasileira utiliza a sintaxe espacial, modalidade viso- espacial, como configuração para se comunicar; isso de uma forma organizada espacialmente. No campo das dificuldades, ela é tão complexa como às línguas orais-auditivas. Em libras podemos identificar, basicamente, as mesmas naturezas gramaticais já conhecidas pelo estudo das línguas orais, como pronome, adjetivos, advérbios, etc. No entanto, embora o conceito atribuído as categorias gramaticais de LIBRAS seja semelhante aos da língua orais, sua forma de classificação e de funcionamento é diferente. A ordem dos sinais na construção de uma frase, em LIBRAS, obedece a regras próprias que refletem a maneira do surdo processar as suas ideias. Logo existe uma independência sintática do português em relação à linguagem de Libras. A categoria artigo, recorrente em inúmeros línguas orais não existem em libras; a preposição é pouco utilizado na LIBRAS;  visto que está incorporada, em algumas frases, ao verbo. Exemplo: Em português escrevemos: Eu irei para a escola; Em LIBRAS: EU-IR-ESCOLA. Portanto, a LIBRAS não pode ser estudada tendo como base a língua portuguesa, já que sua gramática, com todos os seus classificadores e expressões faciais, que complementam a linguagem e maximizam a compreensão, entre os devidos sinalizadores, é independente da língua oral.
     A ordem das palavras, em LIBRAS, ordem, neste caso, como conceito básico relacionado com a estrutura da frase de uma língua, possui seis combinações possíveis de sujeito(S), objeto (O), e verbo (V), conforme observou Greemberg (1966). No entanto, parece haver uma ordem básica que predomina, apesar de haver várias possibilidades de ordenação que também são consideráveis, e, que cada língua elege uma dessas ordenações como sendo dominante. E essa ordem, a ordenação mais básica, parece ser a ordem Sujeito-Verbo-Objeto (SVO).  Há vários estudos da frase na Língua de Sinais Americana (ASL), que são pontos de partida para a língua de sinais brasileira, uma vez que esta apresenta grande variabilidade. Apesar disso, as pesquisas concluem que a sua ordem básica é SVO (Ex: HOMEM-LER-LIVRO). Pra justificar isso há vários alguns argumentos tais como o de Fischer (1980) que observa que SOV é uma ordem não licenciada na posição de objeto não oracional. Já liddel (1980), tem mais um argumento a favor, onde constatou que somente estruturas SVO poderiam ser transformadas em interrogativas sim/não. Portanto, foram observadas várias possibilidades de ordenação das palavras transposta para LIBRAS, onde prevalece a ordem básica das demais, ou seja, corroborando, a ordem SVO. As evidências surgem conforme Quadros (1999), que as evidências surgem de orações simples, de orações complexas contendo orações subordinadas, da interação com advérbios, com modais e com auxiliares. As demais ordenações encontradas na língua de sinais brasileira resultam de interação de outros mecanismos gramaticais.
    Há oposição quanto à ordem SVO; análises diferentes de Fischer e Lidell baseados em estudos polêmicos, mas que também podem ser considerados. Isso tanto no ASL, quanto na língua de sinais brasileiro. Como supracitado, existe seis combinações possíveis de ordenações, segundo Geemberg (1966), seriam dominantes: SOV; SVO, ou VSO.  O autor constatou, através de pesquisas que a ordenação dos elementos tende a ser consistente, ou seja, a língua VO terá o objeto da preposição depois desta, enquanto uma língua OV terá uma ordem oposta, ou seja, primeiro objeto, e, então, a preposição. Fischer, (1980) dentro das seis possibilidades, lista, em seus estudos: SVO; OSV; VOS e SOV.
     Enfim , esse texto é apenas um pequeníssimo breviário, diante do estudo da língua de sinais que é vasto e requer muito estudo e dedicação para um melhor e pleno aprendizado.


Ronice Müller de Quadros e Lodenir Becker Karnopp. Língua de Sinais Brasileira. 1ª edição. Artmed. 2004 (Livro customizado da Fac. Estácio de Sá)
http://estacio.webaula.com.br (Conteúdo online, aulas 6 e 8)


domingo, 25 de março de 2012

Mitos Sobre Surdos e outras Questões Relevantes



     Os equívocos acerca da língua de sinais, infelizmente, norteiam e criam barreiras, principalmente para os surdos, aqui especificado como “portadores de necessidades específicas”. Para fins de esclarecimento, esse texto adotará esse termo supracitado, haja visto que não há um consenso terminológico. Pois isso é um objeto de discussão que se encontra em andamento. As noções equivocadas, sobre as línguas de sinais, são resultados de um passado onde não havia os devidos conhecimentos científicos e também uma falta de interesse por parte de órgãos e instituições responsáveis. Isso ocasionou dificuldades para a sociedade como um todo. Ainda hoje paira no ar certos mitos, entre outros destaco: universalidade da língua, visão errônea, pois cada país tem a sua língua de origem, assim como peculiaridades e variações regionais; inverdades apontando a língua de sinais como sendo conjuntos de gestos e pantominas, quando na verdade ela é uma língua natural,criada por comunidades surdas através de gerações. Sendo assim, ela é um sistema lingüístico legítimo com estruturas gramaticais próprias, independente das línguas orais dos países que são utilizados. As línguas de sinais possuem todas as características das línguas orais como a polissemia, possibilidades de utilização de metáforas, piadas jogos de linguagens, etc. Logo, não deve ser visto como um problema do surdo ou como uma patologia.
     Outro equívoco diz respeito à pessoa do surdo quando classificados como “surdo mudo”; também sendo fruto do passado. Em tempos remotos era desconhecido que o surdo, salvo exceção, tem o aparelho fonador resguardado. Se aparentemente não falam, isso se deve a dificuldades impostas pelo não desenvolvimento da memória auditiva, entre outros fatores. O surdo também “já foi”, por vezes, considerado como um “deficiente mental”, pejorativamente. Inclusive foram obrigados a participar de métodos educativos que visavam apagar as diferenças entre surdos e ouvintes, impondo ao surdo a língua e a cultura oral. Os equívocos não param por aí, são vários, alguns “superados”, outros que a sociedade como um todo, necessariamente, tem que apoiar para que sejam, de fato, só equívocos do passado. 
     O contato com LIBRAS já é uma obrigação do cumprimento das recentes políticas lingüísticas e educacionais que visam à divulgação da LIBRAS e da dita “cultura surda”, e a implementação de estratégias para a inclusão da pessoa surda na sociedade com a lei 10436, de 24/04/2002 e o decreto que o regulamenta: 5626 de 22/12/2005. No entanto, não é o suficiente. Pois na prática deixa muito a desejar. A infra-estrutura que se tem hoje, principalmente na parte de mobilidade, que engloba lazer, cultura, e outros fatores cogentes, é muito precária, quando não existentes. Isso vai contra todo direito e legitimação do portador de necessidades é uma inversão aos seus devidos valores como cidadão. Logo, há muito que se fazer para que o portador de necessidades específicas possa, de fato, se sentir incluído e interagindo com a sociedade no regime democrático. 
     No que tange a datilologia é a soletração de uma palavra usando o alfabeto manual de LIBRAS. A datilologia é mais usada para expressar nome de pessoas, localidades e outras palavras que não possuem um sinal específico. Ela não é uma língua distinta, mas um simples código baseado nas línguas orais, e nenhuma comunidade utiliza exclusivamente tal código para comunicar-se. Os surdos a utilizam somente em situações específicas, quando necessário. 
Às vezes, uma palavra da língua portuguesa que por empréstimo passou a pertencer a LIBRAS, por ser expressa pelo alfabeto manual com uma incorporação de movimento próprio desta língua, será apresentada pela soletração ou parte da soletração como as palavras “reais” e “nunca”, por exemplo. É difícil de explicar isso utilizando apenas a escrita, sem demonstrar com as mãos, porque LIBRAS é uma língua de modalidade gestual-visual. Portanto se a pessoa ver o gesto sobre o que estamos querendo falar, torna-se muito mais fácil dela entender. Uma pessoa que não é surda pode usar a datilologia quando ela não sabe o sinal correspondente do que quer falar com um surdo. Então para o surdo entender do que se trata devemos soletrar, usando o alfabeto manual. Entretanto nem todo surdo é “sinalizado”, muitos são “oralizados” e outros não conhecem LIBRAS, infelizmente. 
     Felizmente, o interesse em em relação aos estudos das línguas de sinais é crescente, já não se privilegia totalmente a língua oral. As línguas de sinais podem fornecer novas perspectivas teóricas sobre as línguas humanas, sobre os determinantes da linguagem e o processo de aquisição de desenvolvimento de uma língua que apresenta certas particularidades em relação às línguas orais. 
     Curiosidade: o dia do surdo é comemorado em 26 de setembro porque, neste dia, em 1857, durante o Império de D. Pedro II, o professor francês Hernest Huet, que era surdo, fundou o Imperial Instituto de Surdos Mudos, no Rio de Janeiro. No ano do centenário passou a denominar-se Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). 


Lodenir Becker Karnopp e Ronice Muller de Quadros. Língua de Sinais Brasileira. 1ª edição.Artmed/2004 (material de apoio Estácio 
RODRIGUES SILVA: KAUCHAKJE: GESUEL> Cidadania, Surdez e Linguagem- desafios e realidade. 3ª edição. PLexus. 2003 (Mat Apoio Estácio) 
www.webaula.estácio.com (Aulas online 1 e 2)